sábado, 3 de março de 2007

Gente de Almada, Gente Que Viveu Almada


Era reconfortante encontrar o Jaime Feio, onde quer que fosse, no café, na rua, em Almada ou em Cacilhas, no barco, quando ia a Lisboa levar trabalhos da sua tipografia, situada no Largo dos Bombeiros Voluntários em Cacilhas, ou mesmo visitá-lo aí no seu local de trabalho, onde também se encontrava a sua irmã Nazaré , a Lé Lé, para a família.

Conversar com ele era tempo ganho, era tempo de aprendizagem com um jovem de idade mais avançada. Qualquer que fosse o assunto ou o tema, com o Jaime iniciava-se sempre uma boa cavaqueira, porque a cultura geral deste almadense era enorme e preciosa.
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As fronteiras deste nosso amigo ultrapassavam os mesquinhos limites do nosso burgo e do país. Embora tivesse viajado bastante pelo espaço geográfico não só de Portugal, o Jaime viajava pelos livros e aí poderemos dizer que levava um grande avanço relativamente a muitas cabeças supostamente convencidas que eram superiores e bem pensantes, deste nosso lugarejo, pelo facto de estarem aqui ou acolá “bem inseridos politicamente”, os autoconvencidos e "inchados".
O Jaime Feio, Almadense tal como o Francisco Bastos, era presença constante dos fins de tarde e à noite, em animadas conversas à volta de uma mesa do café, a pretexto de beber uma bica. O Jaime chegava sempre com um livro na mão, o qual seria o seu natural companheiro, se outros seus amigos não estivessem já aí. As palavras cruzadas eram tarefa obrigatória do Jaime sempre que um jornal estivesse disponível. Foi um apaixonado pelo coleccionismo: postais turísticos e de personalidades, moedas, notas e selos foram algumas das suas colecções.

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Com ele convivemos e aprendemos muito. O Jaime Feio foi um mestre para os mais novos, por quem tinha um especial carinho em estabelecer conversa sobre qualquer tema. Estava sempre disposto a conhecer pessoas e iniciar um relacionamento proveitoso para as duas partes, porque com o Jaime aprendia-se muito, mas ele também estava disposto a aprender com quem quer que fosse. Amigo da noite, o Jaime, tendo já ultrapassado os oitenta anos ainda era presença constante a partir da meia-noite das sextas-feiras na Cervejaria Cabrinha, em Cacilhas, petiscando e, bebendo uma “imperial”, com malta muito mais nova que ele.
Soube como ninguém conviver com os mais novos e estes gostavam de o ter presente. Era um natural conselheiro, a ponto de alguns seus amigos de juventude, dizerem :” Não sei o que é que este tipo tem que as miúdas vêm sempre falar com ele e dar-lhe um beijo! “. O Jaime, nada dizia, só sorria e ria-se. Era seu segredo saber fazer amizades com gente de todas as idades. 


O Jaime Feio era um Homem que cativava naturalmente as pessoas, pela sua moderação, pela sua cultura, pela sua humildade, mas também pela sua grandeza de espirito aberto a ideias novas e sobretudo pela sua abertura ao debate livre e saber dar um bom conselho sem impor nada, nem nada pedir em troca. Nem a amizade dos outros ele pedia. Vinha naturalmente.
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O Jaime era contra toda e qualquer forma de domínio do homem pelo homem, em quaisquer circunstâncias e onde quer que fosse. Para ele as palavras e conceitos de opressão, controle e exploração do ser humano, estavam banidas.
Obrigado Jaime !

quarta-feira, 28 de fevereiro de 2007

Gente de Almada, Gente Que Viveu Almada

O "Chico Bastos", "O Chico" para os amigos, de seu nome Francisco de Oliveira Bastos foi um daqueles almadenses sempre fiel a Almada, ao seu passado, vivendo atento ao presente e sempre preocupado com o futuro da cidade e do concelho. Com ele e com outros privámos muitos momentos de convívio e conversa sobre a nossa terra, apesar da acentuada diferença de idades. O "Chico Bastos" cultivava princípios éticos e valores de sociabilidade que dignificam as pessoas e os cidadãos enquanto actores na sociedade em que se integram.
Fiel ao seu Sporting e aos seus amigos, era uma presença muito agradável e estimulante à mesa do café, para uma conversa construtiva acerca de qualquer facto, assunto, ocorrência local ou nacional.
Conversar com ele constituía um natural valor acrescentado para um livre e aberto debate de ideias e pontos de vista.
Como grande atleta e campeão que foi e soube ser, tinha do desporto uma natural concepção de actividade enriquecedora da personalidade do homem.
O "Chico Bastos" partiu um dia. Deixou o nosso convívio. Almada perdeu um homem sincero, um almadense de referência, que quando falava da sua terra sabia do que estava a falar. O "Chico Bastos" sempre preservou a sua independência. Modestamente sabia quanto valia, por isso nunca se deixou envolver.
Era um Homem Bom, cidadão de sólido carácter e forte personalidade.
O "Chico Bastos" amava a sua terra, Almada e as pessoas. O seu amor por Almada evidenciava-se com alguma relevância quando conhecia um jovem que lhe dizia ser de Almada. Imediatamente o "Chico Bastos" dizia : "Se és de Almada, então és boa pessoa !"
Quando algum amigo chegava junto dele ou era ele que chegava junto do amigo, perguntava sempre com a sua voz forte e sonante : "Então pá, como é que estás? e todos os teus vão bem?
Se o amigo lhe respondia: "Está tudo bem" ou "Estamos todos bem", o "Chico Bastos" imediatamente dizia com alguma emoção :"Fico muito feliz em saber que estão todos bem."
Este " Fico muito feliz " era dito com tal naturalidade e uma emoção tão grande, que por vezes lhe corria a ponta de uma lágrima no canto do olho.
Era "O Chico" com a simplicidade e a humildade de Homem Bom, Sincero e Amigo!

terça-feira, 27 de fevereiro de 2007

PENSAR LIVRE - SER LIVRE - VIVER LIVRE

A LIBERDADE
"A Liberdade não se concede, conquista-se"
Pierre Kropotkine - Russo (1842-1921) - Príncipe, geógrafo, escritor.