quarta-feira, 7 de março de 2007

Gente de Almada, Gente Que Viveu Almada

José Correia Pires, natural de S. Bartolomeu de Messines, Algarve,viveu em Almada. Aqui o conheci, com ele e outros democratas partilhámos momentos de conversa sobre a sua vida vivida numa luta constante na clandestinidade, na prisão e em liberdade vigiada, por ideais de justiça e de humanidade que não é comum encontrar-se entre muitos homens. Em Almada, Correia Pires esteve sempre disponível, quando foi preciso colaborar com todas as forças políticas contra o regime que cerceava a liberdade aos portugueses e os oprimia. Anarquista, José Correia Pires foi homem de primeira linha na batalha contra a opressão, pela liberdade e pela solidariedade entre os homens. Foi deportado para o Campo de Concentração do Tarrafal em Cabo Verde entre 12/6/1937 e Fevereiro de 1945, onde passou várias vezes pela “Frigideira”, junto com outros companheiros. Deixou-nos um livro “Memórias de um Prisioneiro do Tarrafal, escrito em 1974, onde descreve parte da sua vida, do qual transcrevemos estes extractos:

“Por convicção e temperamento fui sempre socialmente amigo de toda a gente e, se por vezes pareço ou sou mesmo alguma coisa drástico ao que não me parece bem, a verdade é que sempre preferi exaltar virtudes a arengar defeitos. Afigura-se-me que quando aos outros atribuímos defeitos, nos possam acusar que com o facto queiramos esconder os nossos, enquanto que exaltar virtudes, mesmo que sejam nossas, a virtude é sempre virtude, propagá-la em teoria já é elevado, mas pela prática é simplesmente nobilizante.”...”Em todo este arrazoado se pode depreender que o sectarismo não é de cultivar e, se o amor às ideias se pode aceitar como princípio, o ódio ao adversário é situação que nos animaliza e apouca.”
Sobre um episódio ocorrido no Campo do Tarrafal :” A verdade, porém, é que a inflexibilidade do Partido (PC) foi sempre ao longo do tempo, expressão de intolerância e os que não acatassem as suas palavras de ordem eram votados ao ostracismo e, em tudo lhes dificultavam a vida.”
Após o 25 de Abril de 1974, sabendo que um dos seus carrascos, julgo que o Seixas, estava preso em Caxias, pediu-me se conseguiria autorização para o levar a ver o carrasco na prisão. Consegui e levei-o a Caxias. Fizeram-lhe uma recomendação: abririam a portinhola de observação, mas ele, Correia Pires não poderia dirigir qualquer palavra ao preso. Aceitou. Mal abriram a portinhola Correia Pires, conseguiu reconhecer o homem que o havia maltratado e torturado . Este imediatamente virou o rosto quando se sentiu observado. Provavelmente reconheceu o "seu" ex-prisioneiro. Reparei na expressão facial do meu amigo Correia Pires naquele importante momento da sua vida. Essa expressão não era de vingança, mas sim de satisfação por sentir, talvez, que havia sido feita justiça. Aquele que tinha sido seu carrasco finalmente já não torturaria mais ninguém. Julgo que Correia Pires nunca mais esqueceu aquele curto momento em Caxias, onde também ele esteve preso, tal qual não esqueceu os anos de sacrifício que passou longe da família, na clandestinidade e na prisão. “ Que poderei dizer dum homem irmão dos outros homens que conheceu, por vezes, a prisão, a clandestinidade, a fome e a miséria e que esteve 8 anos no campo de Concentração do Tarrafal? Sei que aos 68 anos de idade, vem contar ao povo seu amigo episódios vividos por si. Para dizer o que lutou, sofreu e sonhou. Sonhos de liberdade do seu povo real....” (do prefácio de seu Livro, do amigo A. Madeira Santos) “ O ANARQUISMO é uma doutrina que o TIRANO esmaga, mas que O JUSTO E O HERÓI praticam e a NATUREZA NOS ENSINA.” Correia Pires

José Correia Pires saiu em liberdade, no dia 9 de Março de 1945, depois de regressar à metrópole e ainda ter estado preso em Caxias uns dias.

domingo, 4 de março de 2007

Gente de Almada, Gente Que Vive Almada

Com o devido acordo, insere-se este "post" do Blog http://emalmada.blogspot.com Domingo, Março 04, 2007 Cidadania e Participação Política Em...Almada, Domingo 1 de Fevereiro de 1970, pacificamente aconteceu isto. Jovens estudantes uniram-se e tomaram uma decisão e uma atitude em sua defesa e de seus direitos. Outros tempos... Não havia aqui "política"? Claro que havia e há sempre, porque sempre que o(s) cidadão(s) toma(m) uma atitude em defesa de seus interesses e do interesse colectivo está(ão) a fazer política. Hoje aqueles que tomam de "assalto" o poder, qualquer que seja, por via democrática, acham que o cidadão não deve defender os seus interesses nem deve intervir, não deve fazer política, porque esses entendem que o voto é uma procuração e que só eles é que estão credenciados para fazer politica. Não é assim. Quem é eleito, é para assumir responsabilidades dos seus actos perante os eleitores e não para pisar os eleitores.

Esta notícia, a do lado esquerdo, saíu no mesmo dia 1 de Fev1970 no "Diário de Lisboa" e a do direito, no dia seguinte 2ª feira no vespertino "A Capital". Recordo aqui um jovem estudante de então, o Luís Montelobo, hoje Engenheiro Químico, algures trabalhando no Norte, se já não estiver reformado! Foi ele que coordenou esta jornada e foi o interlucutor com a Gerência do Café Central de então. Não houve intervenção policial. Aqui houve bom senso da Gerência em não chamar a PSP. Foi uma ocupação pacífica, em que os jovens de então, adquiriram meia dúzia de exemplares do Diário de Notícias, por quotização e foi distribuída uma folha a cada um, que a abria simulando leitura. Outro pormenor, foi que o café começou a ser ocupado pacificamente a partir das 13 horas, sentando-se de início só um em cada mesa com uma bica, até esgotar todas as mesas. Só depois era permitido mais de um "leitor" na mesa. Recordo que nesse Domingo 1 de Fev de 1970, o Chefe da Esquadrada PSP de Almada, quando leu o Diário de Lisboa, apareceu logo no Café perguntando o que ocorrera....não tivera conhecimento...era preciso mostrar disponibilidade para manter a ordem! Aconteceu em Almada...em 1 de Fevereiro de 1970, quando ainda havia vida em Almada....Vivia-se efectivamente Almada.

sábado, 3 de março de 2007

Gente de Almada, Gente Que Viveu Almada


Era reconfortante encontrar o Jaime Feio, onde quer que fosse, no café, na rua, em Almada ou em Cacilhas, no barco, quando ia a Lisboa levar trabalhos da sua tipografia, situada no Largo dos Bombeiros Voluntários em Cacilhas, ou mesmo visitá-lo aí no seu local de trabalho, onde também se encontrava a sua irmã Nazaré , a Lé Lé, para a família.

Conversar com ele era tempo ganho, era tempo de aprendizagem com um jovem de idade mais avançada. Qualquer que fosse o assunto ou o tema, com o Jaime iniciava-se sempre uma boa cavaqueira, porque a cultura geral deste almadense era enorme e preciosa.
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As fronteiras deste nosso amigo ultrapassavam os mesquinhos limites do nosso burgo e do país. Embora tivesse viajado bastante pelo espaço geográfico não só de Portugal, o Jaime viajava pelos livros e aí poderemos dizer que levava um grande avanço relativamente a muitas cabeças supostamente convencidas que eram superiores e bem pensantes, deste nosso lugarejo, pelo facto de estarem aqui ou acolá “bem inseridos politicamente”, os autoconvencidos e "inchados".
O Jaime Feio, Almadense tal como o Francisco Bastos, era presença constante dos fins de tarde e à noite, em animadas conversas à volta de uma mesa do café, a pretexto de beber uma bica. O Jaime chegava sempre com um livro na mão, o qual seria o seu natural companheiro, se outros seus amigos não estivessem já aí. As palavras cruzadas eram tarefa obrigatória do Jaime sempre que um jornal estivesse disponível. Foi um apaixonado pelo coleccionismo: postais turísticos e de personalidades, moedas, notas e selos foram algumas das suas colecções.

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Com ele convivemos e aprendemos muito. O Jaime Feio foi um mestre para os mais novos, por quem tinha um especial carinho em estabelecer conversa sobre qualquer tema. Estava sempre disposto a conhecer pessoas e iniciar um relacionamento proveitoso para as duas partes, porque com o Jaime aprendia-se muito, mas ele também estava disposto a aprender com quem quer que fosse. Amigo da noite, o Jaime, tendo já ultrapassado os oitenta anos ainda era presença constante a partir da meia-noite das sextas-feiras na Cervejaria Cabrinha, em Cacilhas, petiscando e, bebendo uma “imperial”, com malta muito mais nova que ele.
Soube como ninguém conviver com os mais novos e estes gostavam de o ter presente. Era um natural conselheiro, a ponto de alguns seus amigos de juventude, dizerem :” Não sei o que é que este tipo tem que as miúdas vêm sempre falar com ele e dar-lhe um beijo! “. O Jaime, nada dizia, só sorria e ria-se. Era seu segredo saber fazer amizades com gente de todas as idades. 


O Jaime Feio era um Homem que cativava naturalmente as pessoas, pela sua moderação, pela sua cultura, pela sua humildade, mas também pela sua grandeza de espirito aberto a ideias novas e sobretudo pela sua abertura ao debate livre e saber dar um bom conselho sem impor nada, nem nada pedir em troca. Nem a amizade dos outros ele pedia. Vinha naturalmente.
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O Jaime era contra toda e qualquer forma de domínio do homem pelo homem, em quaisquer circunstâncias e onde quer que fosse. Para ele as palavras e conceitos de opressão, controle e exploração do ser humano, estavam banidas.
Obrigado Jaime !

quarta-feira, 28 de fevereiro de 2007

Gente de Almada, Gente Que Viveu Almada

O "Chico Bastos", "O Chico" para os amigos, de seu nome Francisco de Oliveira Bastos foi um daqueles almadenses sempre fiel a Almada, ao seu passado, vivendo atento ao presente e sempre preocupado com o futuro da cidade e do concelho. Com ele e com outros privámos muitos momentos de convívio e conversa sobre a nossa terra, apesar da acentuada diferença de idades. O "Chico Bastos" cultivava princípios éticos e valores de sociabilidade que dignificam as pessoas e os cidadãos enquanto actores na sociedade em que se integram.
Fiel ao seu Sporting e aos seus amigos, era uma presença muito agradável e estimulante à mesa do café, para uma conversa construtiva acerca de qualquer facto, assunto, ocorrência local ou nacional.
Conversar com ele constituía um natural valor acrescentado para um livre e aberto debate de ideias e pontos de vista.
Como grande atleta e campeão que foi e soube ser, tinha do desporto uma natural concepção de actividade enriquecedora da personalidade do homem.
O "Chico Bastos" partiu um dia. Deixou o nosso convívio. Almada perdeu um homem sincero, um almadense de referência, que quando falava da sua terra sabia do que estava a falar. O "Chico Bastos" sempre preservou a sua independência. Modestamente sabia quanto valia, por isso nunca se deixou envolver.
Era um Homem Bom, cidadão de sólido carácter e forte personalidade.
O "Chico Bastos" amava a sua terra, Almada e as pessoas. O seu amor por Almada evidenciava-se com alguma relevância quando conhecia um jovem que lhe dizia ser de Almada. Imediatamente o "Chico Bastos" dizia : "Se és de Almada, então és boa pessoa !"
Quando algum amigo chegava junto dele ou era ele que chegava junto do amigo, perguntava sempre com a sua voz forte e sonante : "Então pá, como é que estás? e todos os teus vão bem?
Se o amigo lhe respondia: "Está tudo bem" ou "Estamos todos bem", o "Chico Bastos" imediatamente dizia com alguma emoção :"Fico muito feliz em saber que estão todos bem."
Este " Fico muito feliz " era dito com tal naturalidade e uma emoção tão grande, que por vezes lhe corria a ponta de uma lágrima no canto do olho.
Era "O Chico" com a simplicidade e a humildade de Homem Bom, Sincero e Amigo!

terça-feira, 27 de fevereiro de 2007

PENSAR LIVRE - SER LIVRE - VIVER LIVRE

A LIBERDADE
"A Liberdade não se concede, conquista-se"
Pierre Kropotkine - Russo (1842-1921) - Príncipe, geógrafo, escritor.